segunda-feira, 31 de maio de 2010

Resenha do filme Segurança Nacional - A Ameça

Escrevi esse resenha sobre o filme do Roberto Carminatti, Segurança Nacional - A Ameaça. Para quem viu e para quem ainda não viu.


Resenha

Um Tiro no Espelho

Filme de Roberto Carminatti comprova estudo feito na UFSC sobre o desconforto do romance de espionagem na língua portuguesa

Robinson Pereira *

O Brasil não tem uma vocação de produzir romances de espionagem, sejam eles encenados nas telas ou publicados em papel. O estudo dos motivos dessa constatação resultaram em uma dissertação de mestrado sobre a spy novel no Brasil. O trabalho versa sobre um romance do escritor gaúcho Telmo Fortes, mas cai como uma luva sobre o longametragem Segurança Nacional – o Filme, lançado este mês pelo diretor Roberto Carminatti.

Eu produzi a citada dissertação de mestrado por um motivo óbvio: como leitor do gênero achava estranho não existirem expoentes do romance de espionagem no Brasil e em outros países fora do eixo anglo-saxão. Os motivos avaliados esbarram na ideologia, no imperialismo e mostram, no entanto, que apesar disso, a spy fiction pode – e talvez deva – ganhar impulso no Brasil.

Somos consumidores do gênero. Nem mais nem menos que outros países, mas gastamos nossos reais (R$) com livros e filmes de agentes secretos que utilizam suas habilidades para salvar o “mundo livre” (ocidental) das mais diversas espécies de ameaças – russos, traficantes colombianos e árabes, na sua grande maioria. Nesse consumo, assumimos valores ideológicos que não são nossos, ou seja, compramos a briga dos outros.

Segurança Nacional, diferentemente de outras das poucas iniciativas brasileiras de ingressar no gênero, optou por não comprar a briga de ninguém, e ativou uma nossa, própria. A ideia foi provocar os traficantes colombianos com uma ameaçadora ação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), que contribuiria para a derrocada de seus negócios.

Tais traficantes já são conhecidos do escritor Tom Clancy, um papa do romance de espionagem tecnológico, desde o livro “Perigo Real e Imediato”, que virou filme. Isso, no entanto, não abala o valor da opção de Carminatti ao eleger os vilões de sua fita. Muito pelo contrário, estabelece uma ligação corajosa ao tomar partido, colocando-se ao lado de “Tropa de Elite” quando definiu o tráfico de drogas como alvo de um combate duro que deveria ser travado pela sociedade organizada.

A decisão de Carminatti pode ser considerada um marco dentro da produção criativa brasileira, pois se posiciona de forma clara, descendo de cima de um muro intelectual que vem repetindo há décadas o formato do antiherói para tratar, sempre de forma passiva, dos vetores de força que cruzam a nossa sociedade.

Se “Tropa de Elite” já tentava mostrar o tráfico sem aquele véu de bom mocismo (com os traficantes ajudando a comunidade, pintados equivocadamente como Robin Hoods atuais), Segurança Nacional é taxativo. Na opinião de Roberto Carminatti, os criminosos colombianos seriam capazes de, por dinheiro, detonar duas bombas atômicas sobre solo brasileiro. Para quem está acostumado a ver a velha dicotomia bem X mal na extensa filmografia falada em inglês, isso parece trivial. Mas estamos falando em português é preciso avaliar como isso acontece.

Outra língua, outro resultado

Para quem quer avaliar Segurança Nacional, é preciso rejeitar a possibilidade de ver o filme em DVD e tirar a bunda do sofá para dirigir-se ao cinema. É na salona escura, dentro de um ambiente coletivo, que é possível fazer a leitura de todos os aspectos do filme: os que estão dentro e os que estão fora da tela.

Não cabe aqui destacar a qualidade das cenas de ação, a habilidade do diretor e de sua equipe em coreografar lutas e lidar com a tensão. Isso não é tão interessante quanto fazer uma leitura da leitura do filme feita pelo público médio, que vai consumi-lo junto com pipoca e guaraná, como faz com o grosso da dieta cinematográfica, que tem gosto de cheeseburger.

O expectador é duro com “Segurança Nacional” em vários pontos de sua uma hora e 20 minutos de duração. Alguns não conseguem aceitar que um Volkswagen Gol “bola” possa ser usado em uma perseguição, enquanto outros riem da longa cena em que é executado o Hino Nacional. Em geral, ouve-se burburinho a cada diálogo que julgam não se encaixar na boca de atores brasileiros, falando de bombas atômicas, ataques aéreos, bases inimigas e etc.

A explicação é uma só: estamos acostumados a ouvir isso tudo em inglês e não na pele de atores que vemos fazendo papéis insossos em novelas, nas quais os dramas se resumem a quem vai terminar casado com quem. No filme de Carminatti, o drama é evitar que duas bombas atômicas explodam no Brasil. A ruptura de paradigmas é gigantesca e o roteirista diretor teve trabalho extra para parecer natural. Talvez não tenha conseguido. Mas rompeu um grilhão.

Caras novas para novas caras

Oliver Stone quando quis fazer um filme sobre o Vietnam como ninguém havia feito antes, decidiu escalar um elenco de completos desconhecidos. Apenas Charlie Sheen estava lá, como uma espécie de referência ao pai, que trabalhara em Apocalipse Now. Um elenco desconhecido teria funcionado melhor para Segurança Nacional, e a prova disso é que o vilão é o ator que mais convence. Joaquin Cosio é desconhecido para os brasileiros, não temos referências dele, por isso funciona bem. Esse problema poderia acontecer para James Cameron, caso chamasse Jim Carrey para estrelar Avatar.

A ruptura provocada por Segurança Nacional ainda não foi completamente percebida pelo público brasileiro, mas já teve reflexos no Exterior. Carminatti mostrou que sabe fazer filmes nos moldes clássicos que os americanos produzem, e isso já resultou em dois convites para dirigir obras de ianques, um inclusive de um dos produtores do grande sucesso de James Cameron. Como os americanos não conhecem nossos atores, a leitura dos diálogos é diferente daquela que fazemos, não gerando ruptura. A forma de assistir ao filme se atém às condições técnicas e à narrativa (e ao seu maniqueísmo) propriamente dita.

Bem X Mal ou Mal X Mal?

Esse maniqueísmo da narrativa é que encontra talvez uma resistência ainda maior que a que ocorre com os diálogos, o que teria feito com que Carminatti passasse por um dobrado ainda maior ao lidar com elementos como forças armadas, Abin e o próprio Planalto, a nossa sede do poder.

Não podemos esquecer que nosso grande público, o que encontramos no cinema para ver Segurança Nacional, é provavelmente o público dos telejornais que associam Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, o Pavilhão Nacional à Brasília, à corrupção. Para muita gente, Abin é aquele órgão que planta escutas em telefones de políticos e juízes para poder entrar no jogo do toma lá dá cá. Para grande parte dos brasileiros, as forças armadas só criam associações mentais com ditadura e tortura. Como criar uma nova associação para Segurança Nacional?

Tudo, no final das contas, em um romance de espionagem, em um thriller de espionagem, em um filme de ação com espiões, se resume ao conflito bem X mal. Esse conflito não é absoluto (se fosse, Marcos Rocha deveria ser um policial federal), mas o vilão do protagonista deve ser o vilão do narrador, assim como o vilão do público. Roberto Carminatti assumiu a difícil tarefa de tentar tornar mocinhos aqueles aos quais cai muito bem, no Brasil, a carapuça de vilão. Uma tarefa difícil.

Nesse caso, os anglo-saxões têm mais facilidade. Há mais de um século eles colecionam inimigos, os quais costumam revisitar com freqüência, como nazistas, russos, árabes e japoneses. A sua ficção já imprimiu como tatuagem o medo do outro no seio da cultura anglo-saxônica. Cá entre nós, vale mais a cultura do “põe água no feijão que chegou mais um”, o que dificulta sobremaneira o trabalho do escritor de spy fiction.

No meio de tantas teorias e comparações, Segurança Nacional se sai bem como uma espécie de debut do cinema de espionagem no Brasil. Encontrar um sistema ficcional que se encaixe mais na nossa cultura, não caberá apenas aos movimentos históricos e geopolíticos nos quais o Brasil se enquadrar. Um exemplo é a situação na qual estamos penetrando com a negociação do programa nuclear do Irã, ou mesmo a forma como o mundo está olhando para a nossa Amazônia. Caberá também à capacidade de persuasão dos roteiristas que encararem os desafios seguintes de se posicionar à frente (ou aos lados) da história.