quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Voo (Parte 1)

O sargento Medeiros abriu a porta do carro e tombou para o lado, caindo em meio aos cacos de vidros, pedaços de plástico e cápsulas deflagradas. Rolou para a proteção do bloco do motor, na dianteira do veículo, a despeito da dor que vinha da perfuração no ombro esquerdo. O braço todo estava amortecido, o que o obrigou a recarregar a pistola usando apenas a mão direita. Treinara aquele movimento há muito tempo e isso fez com que perdesse alguns segundos preciosos. Girou a cabeça e pôde ver dois vultos esgueirando-se entre a parede do túnel e uma fileira de carros destroçados. Testemunhou, com um aperto no peito, quando um dos homens disparou, com a metralhadora com supressor, dois tiros em uma mulher que tentava rastejar para longe das chamas.
- Filhos da puta!
O pensamento não ajudava em nada. Precisava te certeza de quantos de seus perseguidores haviam escapado da colisão com o ônibus e estariam em seu encalço. Não estava em condições de correr dali sem ser visto imediatamente e sabia que era seu último pente, com 14 cartuchos. Precisava entrar em foco, concentrar-se em escapar, mas não era isso que mais o afligia. Tantos já haviam morrido antes, outros agora, a sua vida - por ela própria - não fazia tanta diferença. O que fazia sentido mesmo era ficar vivo para expôr a história.
Mas expôr para quem? Em quem poderia confiar?