domingo, 17 de outubro de 2010

A porta que o Tropa abre


Parece que José Padilha e Bráulio Mantovani falaram, sobre o lançamento de Tropa de Elite 2, que o filme poderia suscitar o debate sobre violência entre os presidenciáveis. É uma pena que isso não está acontecendo. Sinceramente, era de se esperar. O tema é bom, mas o enfoque do filme coloca os políticos em saia justa. Para eles, melhor deixar de lado.

Mas não é apenas esse debate que o filme tem o potencial de levantar. Tirando fenômenos sociológicos do caminho, Tropa de Elite 2 é o pontapé ideal para discutirmos a nossa indústria cultural, a cinematográfica em especial. Com uma projeção de faturamento na ordem de R$ 100 milhões em 3 meses, o filme vai se pagar. Essa previsão é com bilheterias, e no segundo final de semana o filme mostrou fôlego para continuar faturando horrores. Isso é muito bom.

Deixando de lado que o filme é uma sequência e tem um tom quase épico, Tropa 2 abre as portas para um novo modelo de cinema no Brasil, que não é nada novo lá fora: O cinema comercial, aquele do qual os nossos cineastas fugiram por décadas, como se fosse um pecado. Praticamente todos os cineastas brazucas queriam ser Truffaut ou Goddard, e hoje devem se surpreender que já faz um tempinho que seus colegas franceses cederam aos bons resultados do cinema americano, que segue nada mais do que os modelos mais clássicos de contar histórias.

Que mal há em pagar as contas? Que mal há em gerar uma indústria forte sedenta por títulos novos e que estimule o surgimento de uma leva de novos autores e incendeie o mercado editorial brasileiro, que é tão morno e acomodado? Que mal há no público curtir uma catarse que seja nossa, e não de outras culturas (que raios me interessa se Jason Bourne conseguiu se vingar da CIA, que o destruíra como ser humano?) ?

Produtores culturais e empresários devem olhar para o fenômeno e ficar bem atentos. Um investimento de R$ 18 milhões poderá render fácil R$ 200 milhões. E gerar filhotes. A Rede Globo, espertamente, lança DVD com episódios de Força Tarefa, que já era um resultado da influência do primeiro Tropa e de seriados e novelas da Record, de cunho policial. Catarse dá dinheiro, alimenta o ego do público, faz com que as pessoas se sintam melhores e pode gerar uma semente muito boa: a semente da indignação.

Entro aqui um pouco na sociologia da qual fugi antes. Mas acontece que vivemos no Brasil há mais de 100 anos sob a ditadura do ceticismo do modelo do antiheroi. Ceticismo, ironia e imobilismo. Abordo isso, de certa forma em minha dissertação de mestrado que trata da presença do romance de espionagem no Brasil e deve render tese de doutorado. Somos céticos com nossa possibilidade de mobilização diante do mal e adotamos a ironia como ferramenta de lidar com isso. Ironia e humor. Rimos da ditadura, da corrupção e de todas as nossas mazelas, e isso de nada adianta. Comandante Nascimento não ri de nada disso.

John Rambo não ri. Jason Bourne não ri e outros heróis com os quais nos acostumamos não riem diante do que a narrativa trata de encarnação do mal. E todos nós curtimos essa luta entre o bem e o mal, principalmente quando o bem vence.

Não digo que o mal não possa vencer na ficção, como costuma acontecer na vida real, mas precisa ser sempre????

Essa porta que Tropa abre é boa para muita gente que está tentando entrar no mercado há anos e não consegue porque a indústria cultural não tem olhos para o novo no Brasil. E não tem olhos porque não existe demanda. Mas se tiver produtor cultural e empresário esperto nesse país, vai ver que esse filme de José Padilha e Bráulio Mantovani abre um novo referencial, mostrando que é possível ganhar dinheiro aqui com cinema como se faz em Hollywood, Hong Kong ou Nova Delhi. E para poder entregar novos títulos de thrillers, policiais, aventuras, filmes de ação e outros gêneros que fazem um sucesso danado nas nossas videolocadoras, vão precisar de mais autores, mais diretores, mais roteiristas, mais atores, mais dublês e mais técnicos em efeitos especiais.

Isso é um bom começo. Ou não?