quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E em "Fronteira", como é a heroína?

“Fronteira” nasceu de duas imagens: um avião alugado pelo SNI sendo metralhado ao sobrevoar a fronteira da Etiópia e da Somália; uma multidão de órfãos de guerra sendo levada da Etiópia para a Somália. A primeira imagem foi real, narrada pelo ótimo Roberto Lopes no livro “Rede de Intrigas”, que fala sobre a indústria bélica brasileira nos anos 70 (uma história recheada de um punhado de exageros). A segunda imagem era possível, fictícia.

Eu tinha, então, de um lado um grupo de agentes do SNI movidos parte por ideologia, parte por diárias polpudas que devem ter recebido por agir fora do País; do outro lado, alguém que conduzisse aquelas crianças em meio a um cenário perigoso.

No meio do caminho apareceram outros personagens, com destaque para o idealista agente do Mossad, que no afã de defender os interesses de Israel, não percebe que Israel estava armando um plano do qual ele não tinha noção.

Mas o foco aqui está em Marie Helene, uma missionária francesa que, na verdade, é brasileira, que mudou de identidade após fugir do Araguaia. Inquieta, foi parar na África, tentando, mais uma vez, ajudar alguém.

Ela criou-se praticamente sozinha e é uma heroína porque tenta fazer algo que é impossível: tentar vencer o ódio dos homens tempo o bastante para levar 250 crianças para um local que ela considera seguro.

Os agentes do SNI e o agente do Mossad não enxergam o mundo ao seu redor. Enxergam apenas o grande jogo da espionagem, que movimenta pessoas como se fossem peças em um tabuleiro. Por isso são frios, desconectados do mundo normal, onde os outros seres vivos vivem. Para eles o Bem e o Mal variam diariamente.

Dialético

E é exatamente isso o que acontece no romance de espionagem. Se você tomar por base qualquer livro de Tom Clancy, Ken Follet e outros, vê que o chamado “vilão” sempre tem sua motivação. Sua aldeia foi destruída, seus irmãos foram mortos ao tentarem atacar o grande império britânico ou americano, etc. Daí eles preparam um grande ataque secreto, traiçoeiro. Pois então? Eles não tinham seus motivos? Assim como o ataque às torres gêmeas foi um troco para décadas de uma política externa cruel e resultou em mais duas guerras. Onde fica o Bem e onde fica o Mal. Quem é o herói?

Voltando ao nosso herói Beto

Nas tramas policiais, como em Tropa de Elite 2, é fácil ver que existe um herói ali porque ele ataca aquilo que não apenas notoriamente é o Mal, mas algo com o qual todos nós concordamos que seja o Mal. E o herói vai e bate no mal. Para nós é o suficiente.