sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Encerrando minha participação no tema herói brasileiro

Outro exemplo clássico, e que até comentei com o Bráulio Mantovani (que não gostou da comparação), é do personagem John Rambo, no segundo filme da série. Ele volta ao inferno, como diz o próprio slogan do filme, e reencontra um punhado de situações que mostram que o passado de guerra continua bem vivo. Pior que isso, ele se envolve novamente em combate, é preso, torturado e vê prisioneiros de guerra mantidos em condições sub-humanas há duas décadas. Quando foge trata de voltar e se vingar de seus algozes e salvar seus compatriotas. A cena em que ele retorna ao campo de concentração com um helicóptero cheio de armas e explode tudo é o clímax do filme. Assisti Rambo 2 algumas vezes no cinema e em todas as ocasiões esta cena foi aplaudida, com direito a urros da plateia. Vi críticos de cinema comentando que ficarem preocupados com a reação da platéia de Tropa de Elite 2 quando Nascimento desce o cacete no político corrupto. Realmente não entendi o comentário. Provavelmente eles não viram Rambo Il no cinema e tão pouco prestaram atenção ao filme de Padilha. Nascimento, naquela sequência está descarregando a raiva de um cara que é culpado por seu filho ter levado um tiro. O policial sabe que o cara é um político corrupto, como tantos outros que ele (assim com nós) já teve que suportar nos noticiários, vento enriquecer e escapar de lei. Deste forma, o crítico que fez tal comentário parece ter feito com um único objetivo: polemizar, mesmo que para isso tenha que dar um atestado de que não conhece a sociedade ao seu redor e que não tem a menor noção do que seja um mecanismo de catarse.

Daí eu questiono: se passamos décadas considerando heróis figuras cujos atos heróicos na verdade são questionáveis. Posto que em seus conflitos (do Bem contra o Mal) podem ter enfrentado um Mal que para nós era indiferente, porque agora questionamos se um personagem como Nascimento é herói ou não, simplesmente levando em conta seus métodos? Brasileiros aplaudiram efusivamente John Rambo em uma sequência em que ele desrespeita um punhado de regras do Código de Genebra ao vingar-se de um inimigo que nunca foi nosso. E por quê? Simplesmente porque nós o vimos sofrer, e o vimos passar por isso em desvantagem.

Quando o comandante Nascimento se vê em desvantagem, tanto quanto Rambo, ele é um homem tentando se virar no meio de um sistema (como ele mesmo gosta de falar) muito mais forte que ele. E adivinhe quem se encontra na mesma situação?