quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os heróis e anti-heróis de meus livros

Posto isso sobre os heróis na ficção brasileira, especificamente o comandante Nascimento, de Bráulio Mantovani e José Padilha, em comparação com o herói na ficção estrangeira (anglo-saxônica, principalmente), quero falar aqui sobre a minha experiência com o tema.

Publiquei “Souvenir Iraquiano” em 2005 e “Fronteira” este ano. Ambos são romances de espionagem. Poderia dizer que os dois são resultado de um trabalho que comecei com o meu mestrado, em 2002, quando iniciei estudos sobre o Spy Fiction.

A vontade de escrever um romance nos moldes de Ken Follet, Tom Clancy e outros já existia, mas era complicado de conceber. Durante meus estudos passei a dar atenção a tramas que poderiam ser plausíveis dentro do imaginário brasileiro.

Não tinha como fazer uma história ao estilo James Bond ou com dramas de fim de mundo nuclear. Seria bobagem, ridículo até. O tal do Pacto da Veracidade que se estabelece entre um texto e o leitor, esse iria para as cucuias.

Daí eu resolvi pesquisar histórias que pudessem servir de ponto de partida, de pano de fundo. Daí surgiu a semente de “Souvenir Iraquiano”: relíquias sumérias sendo roubadas do Iraque pós-primeira guerra do Golfo.

Unir o tema à informação, que eu já conhecia, de que brasileiros trabalharam no Iraque na construção da usina nuclear de Osirak (e em muitos outros empreendimentos) foi um pulo. Não seria complicado fazer o link. Mas como ser plausível? Quem seria o herói dessa trama?

Comecei a escrever sem ter noção real de como seria. Tinha um início, um meio e um final, mas não o comportamento dos personagens. Por isso deixei solto. Não quis força a mão demais, e o personagem brasileiro, Luciano, engenheiro que trabalhou na usina e viu pessoas morrerem tentando roubar as relíquias que surgiam na escavação para a obra, tornou-se um herói titubeante, incapaz de agir por conta própria. Faltavam-lhe as ferramentas certas, estar no local certo. Tornou-se, de certa forma, um anti-herói que quer fazer algo. Mas isso porque o segundo protagonista, o coronel Fahed, um militar iraquiano que não agüentava mais a idéia de uma nova guerra no país (ele lutou na frente contra o Irã por oito anos), resolve deserdar e se revela o verdadeiro herói do livro.

O terceiro protagonista é um especialista em imagens de satélite que trabalha na CIA. É ele que descobre os planos de Fahed e, cansado dos baixos salários de funcionário público, decide armar um plano para uma aposentadoria gorda. Wittman, esse é seu nome, que acaba se delineando como o antagonista, o vilão.

Lidar com esse conflitos de valores dentro de uma literatura que ainda não se define em termos éticos o que é ou não é um herói, foi barra pesada....

(continuo depois falando de como delineei a heroína de “Fronteira”)