segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Triste ponto de vista

Acho que o Fernando Canzian, como eu disse que aconteceria, estreia a lista de críticas à ação do Rio de Janeiro. Comparo a crítica dele à chuva de protestos contra o Dunga, após o Brasil perder a Copa da África. Não tínhamos obrigação de ganhar, e não foi a primeira vez que o Brasil perdeu uma Copa, mas a intenção era detonar com ele.

Agora, nós vimos uma ação que tinha tudo para resultar num massacre, que não aconteceu. Teve falhas, sim elas existem, mas a polícia não tem a "obrigação" de vencer o crime. Ela "deve" lutar contra o crime. Dependendo da força aplicada, talvez o crime ganhe, como já aconteceu em outros países.

O Estado é forte, mas tem as limitações que todo Estado tem. O Estado não pode lançar mão de medidas que o crime organizado dispõe e usa: não pode assassinar, não pode causar terror, não pode torturar. Se faz, está errado. As limitações são grandes. Logo, não tem a OBRIGAÇÃO, mas sim o dever.


Rio: quem paga a conta?

Os favelados fluminenses que vivem há anos sob o terror de traficantes, milícias e policiais corruptos são os maiores financiadores da operação de "resgate" que o Estado iniciou na semana passada no Rio.

A perversão da carga e do sistema tributário do Brasil faz com que os pobres paguem, proporcionalmente, muitíssimo mais impostos do que os mais ricos.

Em tese, todo mundo come. Mas pobres e ricos pagam os mesmos 37% de imposto em um pacote de biscoito, 17% no quilo do arroz, 32% no açúcar, 26% em uma água sanitária. E por aí vai.

Como o rico ganha mais que o pobre, é o segundo quem compromete, proporcionalmente, grande parte do seu dinheiro para manter o Estado.

Segundo dados oficiais (IBGE e Ipea), a carga tributária sobre os pobres teria de cair 86% para se igualar à dos mais ricos.

Quem ganha até dois salários mínimos hoje compromete 49% de seu rendimento com impostos. Quanto mais pobre, mais tungado.

Portanto, é o pobre oprimido no Rio (pela conivência e desprezo desse mesmo Estado que o esfola com impostos, taxas e tributos) que deveria ter sido protegido, em primeiro lugar, de seus algozes.

Durante muitos anos, a polícia (que custa muito mais ao pobre do que ao rico) foi justamente quem ajudou a instalar a indústria do tráfico no Rio. Por não combatê-la ou por ajudá-la diretamente pela via da corrupção.

É, portanto, lamentável todo o ôba-ôba em torno da ação "heroica" das "tropas de elite" e outros superlativos a respeito do novo papel das polícias e das forças de segurança.

Eles não fazem mais do que a obrigação. São pagos (e extremamente caros aos favelados) justamente para fazer isso.

Pior. O que as ações das forças de segurança em ação no Rio revelam é que é muito mais fácil do que se supunha desmantelar a ação desses grupos de criminosos (des)organizados.

As imagens de traficantes fugindo como ratos para o morro do Alemão são emblemáticas. É só comparar as fotos nesta página.

São policiais financiados pelo dinheiro dos impostos com armamento pesado, coletes, etc., contra um bando de traficantes desdentados que (revelam termos de diálogos grampeados) parecem ter saído ontem de uma caverna neandertal.

Eles perderam muito em quatro dias. Centenas de motos e veículos, armas, munição e milhares de quilos das drogas que os financiam _além dos pontos de venda do produto.

Em menos de uma semana, a polícia e os fatos mostraram que, quando o Estado quer, não há nada que possa ser feito contra ele.

O Estado é o ente mais forte de um país normal.

A grande questão é: como ele é usado? Quais suas prioridades?

É preciso ter sempre em perspectiva: os pobres (a grande maioria) são os que mais financiam o Estado brasileiro com seus impostos.

É a eles, por justiça moral, que país deveria voltar suas prioridades.

Precisamos de uma trem-bala de R$ 33 bilhões financiado pelo Estado para a classe média viajar ao Rio ou SP?

Ou seria melhor acabar de vez com a opressão no Rio e coalhar essas comunidades com programas sociais? Ou eliminar o esgoto a céu aberto em centenas de favelas brasileiras, repletas de pagadores de impostos?

A resposta a essas perguntas é simples: quem vai pagar?

Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006 e é autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha.com.