quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Veja e o Heroi de Tropa de Elite 2


Olá. Li ontem a matéria da Veja sobre Tropa de Elite 2. Ou melhor, sobre o fato de Nascimento ter se transformado em um herói de nossa ficção. Não diria que é o primeiro, mas sim o primeiro depois de um longo jejum de heróis. Mais de um século, descontando, é claro, alguma iniciativa nanica (muita gente vem falando de Tiradentes, Lampião, etc. Nascimento é de ficção, pessoal, não dá para comparar).

Desde o início da picaresca, no século passado, mais ou menos na mesma fase da revolução cultural que rendeu a semana da arte moderna, o modelo burguês de romance foi afetado. Prevaleceu, a partir de então, a figura do antiherói.
Nascimento nunca foi um antiherói, mesmo quando disseram isso no momento do primeiro Tropa de Elite. Ele enfrentou, sempre, o que acreditava ser o Mal. Nunca teve uma postura passiva, sempre foi um agente de seu tempo, de sua força.
A sociedade discutiu seu papel e, como é possível dentro de qualquer análise, tomou um partido. Mas dentro de uma lógica mais geral, Nascimento enfrentou o Mal com as armas que tinha ao seu alcance.
É coisa do final do século passado o herói ter que ser politicamente correto. Quantos homens Aquiles matou? Quantos soldados Sansão detonou com uma queixada de burro (ou de porco?) em apenas algumas horas de combate?
A medalha Coração Púrpura é entregue pelo governo dos EUA para quem fez o quê? Indiana Jones matou quantos nazistas e tughes ao longo de seus quatro filmes?
Ora, sejamos menos críticos com o Beto Nascimento, ele é apenas um personagem de ficção.
O que está mesmo em jogo, e não aparece na matéria da Veja é o seguinte:
- O que mudou em nossa cultura para que agora possamos aceitar com tranquilidade a existência de um herói?
Não estou falando apenas em Tropa de Elite, mas Segurança Nacional, Federal e Besouro. São quatro filmes, que apesar da irregularidade técnica e artística, mostram heróis em ação. Heróis brasileiros.
Até bem pouco tempo o termo "herói brasileiro" deflagrava deboche e críticas ácidas. O próprio público que hoje aplaude Beto Nascimento espancando um político corrupto, que nada mais é do que uma encarnação do Mal, riria, há algum tempo, de uma iniciativa parecida.
Em 2002 cheguei no departamento de Literatura da UFSC para começar um mestrado. O meu tema seria a ausência do Herói na Ficção Brasileira. Era muito amplo e não consegui fundamentação para isso. Ninguém queria me orientar. Hoje, uma matéria da Veja mostra que eu estava certo. Ano passado o mesmo tema me inspirava para o início de um doutorado.
Hoje, a vontade é mais forte.

Boa lembrança de alguns no twitter: O Vigilante Rodoviário. Dia desses enviei um email para o pessoal da Gullane Filmes sugerindo levar o personagem para o cinema
(VEJA NESTE MESMO BLOG OUTROS POSTS SOBRE O FILME TROPA DE ELITE 2)

Veja também informações sobre os meus livros "Souvenir Iraquiano" e "Fronteira"