terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Eu disse que ia escrever isso, e escrevi

Em primeiro lugar quero deixar claro dois pontos:

- sou contra qualquer tipo de ditadura, autoritarismo e sou contra a Direita;

- procuro escrever aqui de forma isenta, desapaixonada.

Posto isso, deixe-me eu começar.

Na transição da ditadura para a “democracia”, a Anistia Ampla Geral e Irrestrita acabou (em tese) com um processo de guerra dentro do Brasil. Eu digo guerra porque, como disse uma colega no twitter, os chamados “subversivos”, os “guerrilheiros” não estavam cometendo nenhum crime, mas sim eram CONTRA um governo que se impôs à força.

No entanto, devemos avaliar que não havia, na época, como não existe até hoje, um consenso acerca de quem era certo ou errado. Simplesmente porque não existe um lado certo ou um lado errado em uma situação como aquela, como uma luta pelo poder.

Vejamos o que aconteceu no Afeganistão nos anos 80. Naquela época os mujahedins eram “guerreiros da liberdade”, lutando contra os russos. Hoje, a resistência iraquiana é chamada de “terroristas” ao tentar expulsar os americanos de sua terra.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil pós golpe militar?

O golpe foi apoiado por parte da população, ao mesmo tempo em que foi execrado por parte dos militares.

O que valeu mais, no final das contas, dentro de todo o processo? O que “mandou” mesmo? O dinheiro.

Quem esteve no poder durante a ditadura? O Capital.

Quem está no poder hoje? O Capital.

Qual é a diferença entre as duas épocas? A meu ver, a situação hoje não é melhor do que era antes do golpe ou depois do golpe. A grande diferença é que não há uma conjuntura global como houve em 1968, com a formação de um espírito de revolta e de rebeldia. Hoje, como diz o Skank, a nossa indignação é uma mosca sem asas, que não ultrapassa a janela de nossas casas.

Imaginemos o que aconteceria se hoje surgissem movimentos para tentar derrubar o governo atual, mudar o status quo tão repleto de corrupção? Como seriam tratados esses movimentos? Existe alguma dúvida de que seriam tratados da forma mais dura possível? Não desapareceriam pessoas? Não usariam a máquina do Estado para debelar qualquer tipo de resistência?

A Anistia ocorreu em uma época em que havia um grupo CONTRA o outro, e não um GRUPO FORA DA LEI.

Vejamos o que aconteceu em março/abril de 2003, no cerco norte-americano a Bagdá, no último cinturão de resistência. Em uma manhã, em uma ação integrada com carros de combate, satélites e helicópteros Apache, os norte-americanos aniquilaram uma força de resistência de 50 mil homens. Quantos foram mortos? Quantos foram presos?

Por esses motivos que eu acho estranho hoje tratar o passado como se não tivesse ocorrido uma guerra interna. E também acho estranho conceder indenizações como a do Ziraldo. Acho isso tudo muito estranho. Acho também estranhíssimo alegarem que NINGUÉM concordou com o golpe. É muito estranho mesmo, porque teria sido impossível para qualquer governo controlar uma população inteira que fosse contra ele.

Temos uma página de nossa história para virar, mas não para esquecer. Acho muito interessante avaliar como e porque o processo de transição ocorreu de forma pacífica, e se, de fato, ocorreu mesmo. O mais comum é que finais de ditaduras ocorram de forma violenta, com a vitória do outro lado, gerando um novo processo de beligerância para o futuro. É praticamente o que vimos acontecer na África durante todo o século passado.

Desta forma, acho que rever o processo de Anistia vai acabar punindo militares e policiais que estavam atuando em uma guerra (injustificável), mas não vai punir o PODER que os utilizou como ferramentas. Principalmente porque é, provavelmente, o mesmo PODER que hoje se refestela com a passividade do povo brasileiro.