terça-feira, 1 de março de 2011

Tablet é computador ou não?




O governo federal quer qualificar os tablets como notebook, para poder reduzir seus preços. Isso é uma iniciativa muito louvável, pois estimula a economia, a comunicação, a educação e o próprio desenvolvimento da sociedade, enfim. A única dúvida é o motivo da dificuldade de encarar o tablet como um equipamento de informática como um desktop ou um notebook.
Os especialistas do governo que estão fazendo essa avaliação devem levar em conta que um tablet é um aparelho com os seguintes itens: memória, uma central de processamento, uma unidade de output (saída de dados) e uma unidade de input (entrada de dados). A questão é que diferentemente dos computadores tradicionais, a mesma peça física que faz o output é a que faz o input. Ou seja, a tela.
Mas isso não é novo. Um dos primeiros tablets da história foi o Apple Messagepad Newton, criado pela mesma Apple que deu à luz ao iPad, que o mundo consagrou como primeiro tablet (de novo). Parece um surto coletivo de amnésia, pois tablets já existiam há alguns anos, rodando o próprio Windows XP Tablet Edition que contemplavam a mesma facilidade de output e input pelo mesmo lugar (a tela).
Antes disso, vimos uma enxurrada de palmtops e PDAs e handhelds, todos sempre com telas sensíveis ao toque de uma canetinha, permitindo processamento, armazenagem de dados e outras funções. O avanço tecnológico permitiu a tal convergência de funções e vocações, criando a explosão de aparelhos que unem computador, celular, televisão, rádio e futuramente máquina de lavar roupas. Mas nenhum deles, no final das contas, deixou de ser um computador.
Nos anos 80 a Hewllet Packard lançou uma calculadora programável bastante avançada para a época, que até hoje é capaz de dar no couro em qualquer aula de engenharia. Ela se chamava HP41CV e foi até mesmo adotada como item fundamental nos vôos da Nasa depois do acidente da Apolo XI, quando os astronautas ficaram sem computador e tiveram que fazer cálculos complexos de cabeça. Um passeio pelo Google mostrará que não são poucos aqueles que se referem à boa e velha HP41CV como primeiro computador de mão.
Em resumo, a discussão se tablet é computador ou não é uma bobagem. O fato de rodar um sistema operacional que seja diferente de um Windows, OS2, Unix ou outra coisa que o valha não afasta esses aparelhos da vocação de lidar com processamento de dados, com entrada e saída dos mesmos, assim como seu armazenamento. São computadores, assim como o meu e o seu smartphone. São computadores também as calculadoras programáveis como TI89 e HP50G que custam quase R$ 1 mil, um preço impeditivo que coloca os nossos estudantes sempre em pé de desigualdade com relação aos estudantes americanos, europeus, japoneses, chineses ou australianos. Elas também deveriam custar bem mais barato.
Enquanto discutem o sexo dos anjos (sim, pensar se tablet é computador ou não é sexo dos anjos) o mercado cresce menos do que poderia crescer e ficamos atrás em termos de comunicação e mobilidade de dados, tratando tudo isso como se fosse supérfluo, coisa de gente esnobe que tem dinheiro sobrando para gastar com um brinquedo caro.
O que faz pensar: por que será que a maioria dos iphones que a gente vê por aí tocam Marimba quando recebem uma chamada?

Robinson Pereira é jornalista e tecnopata