domingo, 4 de setembro de 2011

Trocando em miúdos

Não tenho nada contra Kiarostami, Tornattore ou Kurosawa. Não tenho nada contra a vanguarda, o Cinema Novo ou qualquer outro movimento cultural que cai nas graças da elite pensante. Eu consumo esses produto e gosto.
Eu critico é a tendência que existe de tornar esses movimentos, essa produção como referência, teto e objetivo.
Enquanto isso nós vemos Transformers, Chuck Norris e Top Guns da vida domesticando nossa sociedade. E isso vem rolando há séculos.
Pagu posava ao lado dos colegas vanguardistas e, na calada da noite, escrevia contos policiais com pseudônimo inglês. Por quê?
A resposta é óbvia, para que tivesse crédito e fosse capaz de convencer editores e leitores. Precisava ganhar dinheiro. Mas por que não teve coragem de tentar mudar realmente o jogo?
Diante da sociedade ela era vanguardista, queria mudar a cultura, a arte, etc. Mas na hora de ganhar o pão sabia o que fazer para seduzir o público leitor.
Mas se ela sabia que o público queria ler contos policiais, por que não fez a sua "tropicalização" desse gênero?
Tem gente que diz que um detetive chamado João da Silva só causaria risadas. É o caso de Ed Mort e outros, numa sugestão clara de que somos capazes apenas de parodiar aquilo que tanto gostamos de ver e ler, como filmes e romances policiais, de suspense ou de espionagem.
Tem gente que diz que a língua portuguesa não se presta pra isso. O roteirista Bráulio Mantovani detona nos diálogos dos dois Tropa de Elite, mas como falaria o agente da Abin de um roteiro que ele fosse escrever sobre a sabotagem de Alcântara? Em primeiro lugar, seria o espião chamado de "araponga"?
Enquanto Pagu se travestia de King Shelter contando casos policiais e hoje continuamos nos qualificando como paródia, o mercado internacional continua nos fornecendo heróis policiais, detetives brilhantes e espiões eficientes com nomes anglo saxônicos. E a gente consome isso de forma ideologizada.
Quando o público veio querendo erguer o capitão Nascimento ao patamar de heroi pintou logo uma galera de jornalistas e pensadores dizendo "alto lá"... (e não adianta o Bráulio querer dizer que não é porque a recepção do público é que conta. Publicou, não é mais do autor)

Eu não vou usar pseudônimos. Nunca.