sábado, 21 de abril de 2012

Protesto contra a corrupção

Alto lá, precisamos parar e avaliar o fraco engajamento ao ato contra a corrupção, realizado em todo o país neste dia 21 de abril de 2012. Não dá para partir rumo ao simplismo de estabelecer que o brasileiro é bovino, que tem os políticos que merecem e assim vai. Estamos ouvindo isso desde sempre, como motivo para explicar porque a nossa colonização não deu certo, isso ou aquilo. É preciso analisar o nosso comportamento, e esse é o tipo de coisa que não será feito de um momento para o outro, em cima do joelho. Não ouso querer explicar, mas arrisco a por algumas luzes sobre essa situação, a guisa de provocar a discussão.
Acho que podemos partir do princípio que o brasileiro não sabe mais onde pedir ajuda. Estamos numa situação parecida com aqueles filmes de ficção científica dos anos 50, quando uma cidadezinha era invadida por alienígenas e os cidadãos passavam a ser substituídos por extraterrestres que assumiam a forma humana. Os protagonistas, na tentativa de escapar e enfrentar a ameaça, procuravam ajuda e invariavelmente se deparavam com aliens disfarçados de humanos - as pessoas em que eles mais confiavam haviam se transformado em inimigos.
Essa filmografia - que fez muito sucesso - se enquadrava na paranóia da Guerra Fria, na qual os americanos propagandeavam sobre o risco de uma invasão comunista, na qual seu vizinho poderia ter se tornado um colaborador dos russos.
Nossa realidade não é muito diferente. O caso Demóstenes é uma prova disso. O grande baluarte da oposição, que vivia acusando o governo petista de ladroagem estava envolvido exatamente com o crime organizado. Ou seja, uma pessoa para quem o brasileiro poderia se dirigir com denúncias de corrupção era mais um alienígena (corrupto) disfarçado de bom cidadão.
A questão é: quantos mais são assim?
Voltamos ao caso da relação Demóstenes-Cachoeira e vemos acusações contra a revista Veja, uma das mais conceituadas do Brasil. E aí, como fica? Quais veículos de comunicação têm ficha limpa? Qual magistrado? Qual policial? Qual empresário? Qual professor? Qual aluno e qual dona de casa?
Será que podemos falar com o nosso vizinho sobre o último escândalo da ALE ou ele está na folha de pagamento fantasma do Legislativo? Será que aquele nosso colega que passou no concurso público estudou mesmo ou foi apadrinhado? Quantos casos existem assim?
Uma coisa é verdade sobre o Brasil: a corrupção hoje se alastrou de uma forma muito ampla, não estamos mais vendo uma pequena minoria garfando os cofres públicos - isso virou uma legião! De positivo está apenas o fato que temos mais gente roubando, mas mais gente gastando, torrando o dinheiro fácil com empregadas, carros de luxo, escolas caras, bares de luxo, restaurantes de primeira linha. O dinheiro circula mais do que no Brasil do início do século XX, que era corrupto, mas cujo poder sob a coisa pública estava nas mãos de poucos.
Mas isso é bom? Claro que não.
Talvez o brasileiro não saia à rua para protestar porque ele não acredite que isso vai funcionar, mas ele acredita que vai se divertir no show sertanejo ou no Carnaval - disso ele tem certeza. Mas o brasileiro hoje não tem certeza alguma de que seu esforço contra os corruptos poderá ser recompensado.
Isso é ruim? É péssimo. E qual é a saída?
Ora bolas, as redes sociais foram a mola que alavancou a Primavera Árabe, derrubando ditaduras no norte da África? As redes sociais na internet e milhões de dólares investidos em ações secretas, em mobilizações frotas de navios de guerra, em lançamentos diários de mísseis de milhões de dólares e alta tecnologia em combate e informação.
As redes sociais e bilhões de dólares foram capazes de mover uma população que estava acomodada, acostumada com seu destino, mas não vamos nos iludir. Eu estive na Tunísia no ano passado e não foi um, não foram dois nem três tunisianos que disseram que um governo corrupto foi derrubado para poderem ser feitas eleições com candidatos mais corruptos ainda.
E como ficamos?
A próxima manifestação contra a corrupção terá um propósito além de reunir gente na rua? Vamos nos encontrar na rua para gritar palavras de ordem e depois o quê? Quem vai olhar para os milhares de pessoas na rua e vai temer seu poder? Quem?
Acho que é esse o propósito de uma manifestação popular: mostrar o poder do povo. Um poder que pode ser canalizado para onde? Com qual finalidade? Para fazer o quê? Para intimidar quem?
De outra forma, em setembro talvez mais gente saia às ruas, pinte o rosto e depois volte para casa para limpar a tinta. E a sensação de que se conquistou algo? Como vai ser?