Novo site

Aviso importante!

Meu blog mudou para um novo endereço: textosecteto.com.br.

#>>> CLIQUE AQUI <<<# e conheça o novo site!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Comentários sobre os comentários

Publico aqui dois comentários que foram feitos no post abaixo.

De cara eu digo que concordo com ambos os comentários, mas acho que é preciso fazer alguns adendos.

Em primeiro lugar, é óbvio que as pessoas sofrem com a varredura das casas. Isso é inevitável. As residências dessas pessoas precisam ser vistoriadas, tem gente sendo mantida como refém. Seria impossível vasculhar o Complexo do Alemão sem entrar nas casas. Alguém tem uma solução diferente para o problema?

O povo nunca acariciou o governo e agora vê motivos para isso. Ainda não é o suficiente, mas é um começo. Tardio, mas precisava começar em algum ponto. Não temos ainda máquina do tempo para voltar 30 anos e corrigir erros.

Depende agora do povo fazer com que o Estado seja uma ferramenta sua, e não apenas das elites.

A guerra contra o narcotráfico vai muito mais fundo mesmo. Já comentei aqui algumas idéias de caminhos a serem tomados para chegar aos barões do tráfico, independentemente de onde quer que estejam, no Rio, em São Paulo, Florianópolis ou Brasília.

A falta de treinamento dos policiais é evidente. O tempo de formação é insuficiente, os salários idem.

O momento da ação, como já disse, foi esse. Não tem como voltar atrás no tempo e ninguém gostaria que fosse deixado para depois. O motivo é a Copa? Foram os ônibus e carros incendiados? A morte do arquiduque Ferdinando? Sinceramente, tanto faz, contanto que aconteça, que siga em frente. Não interessa mais, nesse momento, a cor do pato. O povo brasileiro precisa dos ovos. O motivo não desqualificará a ação se ela for bem engendrada e surtir os efeitos necessários.

Mas não caberá apenas ao Estado fazer com que isso tudo funcione.

Eu não moro em favela e sei que há muitos criminosos de terno e gravata. Criminosos que precisam da bucha de canhão que mora nas favelas. Acontece que ao derrubar uma cabeça, surge outra. Já cortando as “patas” dessa Hidra, ela vai perdendo a força. Quem faz o dinheiro dos barões, dos líderes, são os soldados, os aviões e os consumidores.

Ninguém quer sair matando os “peões” do crime organizado, mas é preciso fazer com que eles se sintam, neste momento, desestimulados pela força, porque agora não há como chamar esse pessoal para escolas. Vejam o que o próprio líder do AfroReggae disse hoje, em entrevista abaixo.

Projetos de ampliação do IDH são fundamentais, mas não serão completamente eficientes. Basta ver que, como vcs mesmos disseram, tem muito criminoso com berço de ouro e que tiveram todas as oportunidades.

A guerra é difícil, amarga e é puro dissabor, mas precisa ser lutada. Tem etapas que a maioria gostaria de pular. Mas precisam ser vivenciadas.

2 comentários:

hansponto disse...

Quanto a posição do Estado com civís, existem denuncias por toda a web afirmando que populares sofrem com a varredura nas casas. O governo deu a 'tapa' e agora está querendo 'alisar'. O povo está acariciando o Estado como se fosse um animal de estimação. E ai onde eu bato na tecla, o estado representa mesmo o povo fazendo o que está fazendo? Seria o estado uma ferramenta do povo ou uma ferramenta que trabalha com o óleo de nossos impostos e gira ao favor dos mais fortes? Sabemos todos que a guerra contra o tráfico vai mais fundo, muito mais. Policiais destreinados, insatisfeitos, grossos, despreparados e um estado que só faz alguma coisa quando o sangue de quem não tem nada a ver com história está no chão.

Bom ou ruim, a atitude do estado foi tardia, isso implica em uma reação barata, com estimulos politicos. Quem tem olhos pra ver, sabe que o que está acontecendo no Rio vai ser colocado na conta da Copa e não do Papa como foi dito em Bope 1. A Mídia modelou tudo o que está acontecendo e ninguem abre os olhos pra ver que a mesma igreja romana comandava os romanos que crucificaram cristo...

29 de novembro de 2010 10:59

Dan Fernandes disse...

O estado falhou, a imprensa falhou, a moral falhou, a justiça falhou, o cidadão falhou...

Só quem mora em uma favela sabe que os 'cidadãos de bem' não são tão inocentes assim, afinal muitos são preconceituosos e arrogantes. Nem tudo se resume economicamente, um pouco de respeito faz alguma diferença. Acho desrespeitoso, por exemplo, uma pessoa que morra na Barra (uma das partes mais luxuosas da cidade) dizer "-Graças a Deus que eu moro na Barra e lá não tem estas coisas!", quando uma pessoa diz isso é equivalente dizer "-Desgraçadas de Deus que essas pessoas moram em tal lugar!".

Medidas imediatas e outras gradativas

Quero esclarecer aqui neste post que estou tratando aqui de açoes policiais que ocorreram no final de semana e que deverao ocorrer. Para mim é óbvio que o Estado deve atuar de forma pertinente em termos de cidadania e de ampliação de nosso IDH. No entanto, essas ações não podem ser confundidas com ações policiais de resultado imediato.
Infelizmente o Estado falhou na distribuição de renda e no IDH, e os resultados estão aí. Logo, uma coisa vem depois da outra, infelizmente, e não o contrário.

Cientista assassinado no Irã

Seria isso o longa braço da CIA e do Mossad?

Cientista nuclear é assassinado no Irã

Explosões deixam mais três pessoas feridas, uma delas é outro físico; televisão acusa Israel

29 de novembro de 2010 | 7h 42

TEERÃ - Um professor universitário e físico nuclear foi morto na explosão de um carro-bomba em Teerã nesta segunda-feira, 29, indicou a o canal iraniano Al-Alam.

Três outras pessoas ficaram feridas em outro atentado semelhante na cidade. A emissora disse que um dos feridos no segundo atentado também era professor de física nuclear.

O cientista morto é Majid Shahriari, da Universidade Shahid Beheshti, informou a agência estatal de notícias iraniana, a Irna. É a segunda morte de um cientista nuclear provocada por um atentado no ano - a primeira ocorreu em janeiro.

Segundo a Irna, homens em motocicletas colocaram bombas nos carros dos cientistas enquanto eles se dirigiam ao trabalho. O canal acusa Israel, principal inimigo do Irã no Oriente Médio, de estar por trás dos atentados.

"Em um ato criminoso de terrorismo, agentes do regime sionista atacaram dois proeminentes professores universitários que estavam a caminho do trabalho", diz uma nota no site da Irna. O professor ferido é Fereydoon Abbasi. As outras duas pessoas feridas são as esposas de cada um dos cientistas.

Segundo o site conservador Mashreghnews, Abbasi é "um dos poucos especialistas que pode separar isótopos" e é membro da Guarda Revolucionária desde a revolução de 1979.

O Irã diz que seu programa nuclear é puramente pacífico, voltado para a produção de energia nuclear, mas a suspeita de que esteja procurando fabricar armas atômicas levou as Nações Unidas, a União Europeia e os Estados Unidos a imporem várias rodadas de sanções contra o país.

Entrevista AfroReggae

'O governador não merecia um banho de sangue', diz líder do Afroreggae

  • R1
  • R2
  • R3
  • R4
  • R5
  • MÉDIA: 1,5

Diretor do grupo Afroreggae, José Junior, falou sobre a negociação com os traficantes do Complexo do Alemão (Foto: Felipe Hanower / Agência O Globo)

RIO - Era 1h30m de sábado, depois da tomada da Vila Cruzeiro pela polícia, quando o coordenador do grupo AfroReggae, José Júnior, de 42 anos, recebeu o telefonema de um dos chefes do Complexo do Alemão, convidando-o para conversar no alto do morro. Não foi fácil para Júnior atender ao chamado de pronto, uma vez que, há 40 dias, descobrira que era a "bola da vez", sentença decretada justamente pelo bandido que lhe fazia o convite. Não subiu o morro de madrugada, mas por volta de 10h, lá estava ele, no coração da comunidade, cercado por 60 traficantes. Segundo Júnior, todos com medo de morrer ou de ir para cadeia. Embora assegure não ter mediado a rendição, o resultado de "suas sugestões", como fez questão de dizer, ajudaram no sucesso da operação: o fim da guerra sem banho de sangue.

( Veja trechos da entrevista )

Você foi o mediador entre o governo do estado e os traficantes para acabar com a guerra no Complexo do Alemão?

JÚNIOR: Não. Não podia ser o interlocutor. Não estava representando o governo, nem os bandidos. Não queria ser porta-voz de ninguém. Fui lá para fazer algumas sugestões. Achei que podia ajudar as pessoas e evitar um banho de sangue. Eles me chamaram para conversar e eu fui lá por conta própria. Até mandei um e-mail para o governador Sérgio Cabral para isentá-lo de qualquer coisa, caso algo acontecesse comigo.

Que tipo de sugestões você fez?

JÚNIOR:Para eles se renderem, porem a mão na cabeça.

Como foi o encontro com os bandidos? Eles estavam dispostos a se render?

JÚNIOR: Chegando lá, o clima tava muito tenso. Vi pessoas muito abaladas, com muito medo de morrer e de ficarem presas. Ouvi bastante. Disse que podia estar presente para dar segurança para eles. Tinha a palavra do Allan Turnowiski (chefe de Polícia Civil) de que ninguém seria humilhado ou seria morto. É o que está acontecendo. Eles diziam que não queriam se entregar, que era difícil, teriam que puxar uma cadeia longa (ficar muito tempo preso). Então eu disse: se não se entregarem, vocês vão morrer. Alguns se emocionaram muito.

Então, teve acordo?

JÚNIOR: Não teve acordo. Sugeri que se entregassem às polícias ou às Forças Armadas, depusessem as armas e não reagissem. Falei que não podiam descer comigo. Não tive pena. Falei que eles haviam buscado isso.

Por que os bandidos da comunidade escreveram numa carta que queriam matá-lo?

JÚNIOR: Porque meu trabalho social à frente do AfroReggae incomodava.

Você ficou preocupado com essa ameaça?

JÚNIOR: Eu tive um sentimento ambíguo. Fiquei chateado, pois eu tinha virado a bola da vez. Mas, ao mesmo tempo, a carta demonstrou o quanto eu incomodava. Tenho certeza que quando o Márcio (dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP) recebesse a carta, em Cantanduvas (Presídio Federal do Paraná), ele ficaria chateado e seria contra qualquer atitude contra mim. Foi uma atitude isolada de dois bandidos. Não era decisão da facção.

Você teve medo de morrer?

JÚNIOR: Tenho 18 anos de AfroReggae e quatro filhos. Aquela carta me incomodou. Mas muitos moradores pediram para eu ir lá, embora integrantes do AfroReggae e policiais amigos meus desaconselhassem.

Algumas pessoas queriam que os bandidos fossem mortos, em vez de serem presos. O que você acha disso?

JÚNIOR: Recebi mais de 9 mil mensagens pela mídia sociais. Cerca de 8.800 a favor da rendição dos bandidos. Mas também cheguei a ouvir policial dizer que se sentiu como um atleta que vai para a Olimpíada e não disputa, só porque não houve banho de sangue.

De quem é o mérito pelo resultado positivo da operação do Alemão, sem baixas dos dois lados?

JÚNIOR: Do governador Sérgio Cabral e da polícia. Digo isso com a maior pureza da minha alma, como costumam dizer as carolas. Até agora, 18h14m (de domingo), a polícia teve um comportamento impecável. Várias pessoas me ligaram do Alemão e elogiaram a postura do Bope e da Core. Até pessoas que não gostam da polícia. Queria ajudar o governador. Ele não merecia um banho de sangue durante o seu governo.

Qual a sua análise geral para o desfecho na guerra contra os bandidos?

JÚNIOR: O próprio bandido está cansado, pois eu nunca tirei tantas pessoas do crime como tiro agora. Pessoas novas e pessoas mais velhas. Tenho orgulho de ter tirado muitos traficantes do crime. No AfroReggae, temos 10 excepcionais mediadores. Todos eles atuaram no crime antes.

Triste ponto de vista

Acho que o Fernando Canzian, como eu disse que aconteceria, estreia a lista de críticas à ação do Rio de Janeiro. Comparo a crítica dele à chuva de protestos contra o Dunga, após o Brasil perder a Copa da África. Não tínhamos obrigação de ganhar, e não foi a primeira vez que o Brasil perdeu uma Copa, mas a intenção era detonar com ele.

Agora, nós vimos uma ação que tinha tudo para resultar num massacre, que não aconteceu. Teve falhas, sim elas existem, mas a polícia não tem a "obrigação" de vencer o crime. Ela "deve" lutar contra o crime. Dependendo da força aplicada, talvez o crime ganhe, como já aconteceu em outros países.

O Estado é forte, mas tem as limitações que todo Estado tem. O Estado não pode lançar mão de medidas que o crime organizado dispõe e usa: não pode assassinar, não pode causar terror, não pode torturar. Se faz, está errado. As limitações são grandes. Logo, não tem a OBRIGAÇÃO, mas sim o dever.


Rio: quem paga a conta?

Os favelados fluminenses que vivem há anos sob o terror de traficantes, milícias e policiais corruptos são os maiores financiadores da operação de "resgate" que o Estado iniciou na semana passada no Rio.

A perversão da carga e do sistema tributário do Brasil faz com que os pobres paguem, proporcionalmente, muitíssimo mais impostos do que os mais ricos.

Em tese, todo mundo come. Mas pobres e ricos pagam os mesmos 37% de imposto em um pacote de biscoito, 17% no quilo do arroz, 32% no açúcar, 26% em uma água sanitária. E por aí vai.

Como o rico ganha mais que o pobre, é o segundo quem compromete, proporcionalmente, grande parte do seu dinheiro para manter o Estado.

Segundo dados oficiais (IBGE e Ipea), a carga tributária sobre os pobres teria de cair 86% para se igualar à dos mais ricos.

Quem ganha até dois salários mínimos hoje compromete 49% de seu rendimento com impostos. Quanto mais pobre, mais tungado.

Portanto, é o pobre oprimido no Rio (pela conivência e desprezo desse mesmo Estado que o esfola com impostos, taxas e tributos) que deveria ter sido protegido, em primeiro lugar, de seus algozes.

Durante muitos anos, a polícia (que custa muito mais ao pobre do que ao rico) foi justamente quem ajudou a instalar a indústria do tráfico no Rio. Por não combatê-la ou por ajudá-la diretamente pela via da corrupção.

É, portanto, lamentável todo o ôba-ôba em torno da ação "heroica" das "tropas de elite" e outros superlativos a respeito do novo papel das polícias e das forças de segurança.

Eles não fazem mais do que a obrigação. São pagos (e extremamente caros aos favelados) justamente para fazer isso.

Pior. O que as ações das forças de segurança em ação no Rio revelam é que é muito mais fácil do que se supunha desmantelar a ação desses grupos de criminosos (des)organizados.

As imagens de traficantes fugindo como ratos para o morro do Alemão são emblemáticas. É só comparar as fotos nesta página.

São policiais financiados pelo dinheiro dos impostos com armamento pesado, coletes, etc., contra um bando de traficantes desdentados que (revelam termos de diálogos grampeados) parecem ter saído ontem de uma caverna neandertal.

Eles perderam muito em quatro dias. Centenas de motos e veículos, armas, munição e milhares de quilos das drogas que os financiam _além dos pontos de venda do produto.

Em menos de uma semana, a polícia e os fatos mostraram que, quando o Estado quer, não há nada que possa ser feito contra ele.

O Estado é o ente mais forte de um país normal.

A grande questão é: como ele é usado? Quais suas prioridades?

É preciso ter sempre em perspectiva: os pobres (a grande maioria) são os que mais financiam o Estado brasileiro com seus impostos.

É a eles, por justiça moral, que país deveria voltar suas prioridades.

Precisamos de uma trem-bala de R$ 33 bilhões financiado pelo Estado para a classe média viajar ao Rio ou SP?

Ou seria melhor acabar de vez com a opressão no Rio e coalhar essas comunidades com programas sociais? Ou eliminar o esgoto a céu aberto em centenas de favelas brasileiras, repletas de pagadores de impostos?

A resposta a essas perguntas é simples: quem vai pagar?

Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006 e é autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha.com.

domingo, 28 de novembro de 2010

Teria faltado?



Não quero dar uma de engenheiro de obra pronta, principalmente pelo fato desta ação no Rio ter ocorrido de forma emergencial. Todos estão de parabéns, a polícia do Rio, as forças armadas, o governo. Está sendo, até agora, fantástico. Uma grande lição foi aprendida.
Agora a coisa toda pode e deve melhorar.
Muitos criminosos vão escapar do Complexo do Alemão. Parece não fazer diferença, considerando-se que eram 600 de um universo de 16 mil contratados pelo narcotráfico no Rio. Mas isso não deveria ter acontecido.
Mas qual teria sido a solução?
Nenhuma. Foi feito tudo que poderia ter sido feito, mas agora é necessário prever outras ações.
O auxílio das forças armadas, das forças federais, deve ser revisto. Precisa ser ampliado. As FAs tem pessoal muito bem treinado que pode participar de operações de desgaste do tráfico, ainda mais em um cerco como o que foi feito no Complexo do Alemão neste final de semana.
Unidades de Comandos e Forças Especiais teriam feito a diferença, com apoio aéreo, para tomar posições mais rápido, sem a necessidade do avanço pelo solo, como foi feito. Caso posições mais elevadas fossem tomadas e instaladas ali unidades autônomas com equipamento pesado (como Barrets) o jogo poderia ter sido outro. A Polícia já tinha um certo mapeamento da posição dos criminosos, faltou meios de isolá-los e detê-los em tais locais, para que não tivessem tempo de debandar, de esconderem as armas e drogas.
Considerando que muitos daqueles criminosos nunca foram fichados, estarão livres para voltar ao "trabalho" em breve.

Parece coisa de filme, alugação? Não. Não é. São operações militares normais, com foco em guerra de guerrilha e que podem ser tomadas quando as forças envolvidas detém informação precisa. Imagino que hoje o Exército já tenha em mãos os mapas topográficos, fotos aéreas e planos de contingência para ações assim. Unidos com o Bope, combinando pessoal com as suas unidades especiais, acredito que conseguiremos melhores resultados, com menos baixas, mais prisões e mais apreensões.
Se existiam 600 soldados do tráfico no Complexo do Alemão no final de semana, dever-se-ia encontrar 600 armas de grosso calibre, como fuzis, metralhadoras, pistolas. É muita coisa, e não deve circular livremente por aí.
Uma estratégia como essa deve ser implementada o quanto antes no morro da Mangueira, por exemplo, onde já se sabe que os narco-terroristas têm metralhadoras .50, armas de guerra feitas para atacar carros de combate e aviões.
É ou não é uma guerra?

Operação em andamento

Ainda bem. A invasão não ocorreu à noite. Por mais que o pessoal do Bope esteja acostumado a atuar à noite, eles estão nessa operação há dias, muitos sem dormir direito. Isso causa um desgaste grande no combatente.
O grande perigo não seria nem a ação propriamente dita, a incursão e o combate, mas sim as incontáveis situações de refém que poderiam - e que ainda podem ocorrer. Apesar da população estar a favor da ação das forças de segurança, civis ainda podem ser tomados à força para formar um escudo humano de defesa dos traficantes.
Segundo dados da polícia, divulgados ontem, estavam acantonados no Complexo do Alemão cerca de 600 homens do tráfico (no total, são 16 mil pessoas "contratadas" pelo tráfico no Rio), e menos de 100 teriam sido presas até agora (10h47 horário de Brasília). O grande problema agora é que muitos desses 600 homens nunca foram fichados, e isso a própria PM afirmou ontem.
Então como serão presos?
O procedimento é deter o suspeito e levar para averiguação. Nada constando contra o cidadão ele será liberado.
Esta talvez seja a única falha da operação até agora. Mas uma falha paradoxal.
Seria necessário fazer o flagrante dos homens do tráfico com as armas e munições, assim como com a droga. Mas eles tiveram tempo de esconder esse material. No entanto, um flagrante seria muito perigoso para a população.

Este é o trabalho duro das forças de segurança e por isso devem contar com todo o apoio da população, da mídia, do governo. Será muito fácil apontar falhas ao final dessa ação, independentemente de qualquer coisa. Somente a união em torno de uma nova política de segurança no Brasil, que começa agora, poderá dar continuidade ao bom trabalho que está sendo feito.

sábado, 27 de novembro de 2010

Artigo do José Padilha

Carcaça de uma sociedade


Por que o Rio de Janeiro é uma cidade tão violenta? Por que tem um número tão alto de homicídios e de assaltos todo ano? Por que grande parte da capital carioca, sobretudo as áreas mais carentes, está dominada por grupos armados? Por que a história do Rio é marcada pela repetição de acontecimentos traumáticos na área de segurança pública, acontecimentos que chamam a atenção do mundo?

Vigário Geral e Candelária explicitaram a violência absurda da polícia carioca. O sequestro do Ônibus 174 demonstrou a precariedade dessa polícia e deixou à mostra a violência de um ex-menino de rua que preferiu “tentar a sorte” a se entregar ao Estado que o torturou a vida inteira. O brutal assassinato de Tim Lopes mostrou que os traficantes cariocas não são Robin Hoods do morro, mas criminosos que utilizam métodos brutais. A tortura de jornalistas de O Dia por milicianos deu origem à CPI que revelou máfias de bombeiros, policiais civis e policiais militares no comando de comunidades carentes, com o apoio de vereadores, deputados estaduais e até deputados federais. E, finalmente, o ataque sistemático do tráfico a vários pontos da cidade, e a reação subsequente da polícia, “desentocou” um verdadeiro exército armado na Vila Cruzeiro e o expôs para todo mundo ver.

Afinal, por que o Rio de Janeiro é assim?

Uma resposta, a da esquerda naïve, postula que a violência no Rio de Janeiro decorre da miséria e da luta de classes, e diz que para combatê-la é necessário acabar com as diferenças sociais, distribuir a renda e educar a população. Há também a resposta da direita naïve, que reduz a violência do Rio a um problema de repressão e diz que ela se explica pela falta de firmeza da polícia e das leis.

As duas respostas estão erradas, contradizem fatos conhecidos.

A primeira não dá conta de cidades que têm índices de desenvolvimento humanos (IDH) piores do que os do Rio de Janeiro e índices de violência menores. A segunda está na contramão da história, que demonstra que incrementos na repressão podem piorar os índices de violência. Foi assim no governo Marcelo Alencar, quando o Estado adotou a remuneração faroeste e passou a premiar os policiais em função do número de criminosos que “abatiam”. A partir daí, o número de autos de resistência, de policiais que declararam ter matado criminosos que resistiram à prisão, cresceu e continua absurdo até hoje.

Muitas vezes, o passo mais importante para encontrar a solução de um problema é enunciá-lo corretamente. Ônibus 174, Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 são uma tentativa de enunciar o problema da segurança pública do Rio de Janeiro a partir da premissa de que a violência carioca resulta, em grande parte, da atuação direta de instituições públicas que convertem miséria em violência. À luz dessa premissa, a violência urbana está relacionada à falta de educação e à concentração de renda, mas a relação não é direta e simples, é intermediada por fatores complexos. Acredito que no Rio o mais importante desses fatores seja o efeito perverso que certas organizações administradas pelo Estado têm sobre parte da população.

Ônibus 174 conta a história de Sandro Rosa do Nascimento, um menino que fugiu de uma tragédia familiar e foi viver nas ruas do Rio. Sandro se tornou um pequeno criminoso para sobreviver. Como menino de rua, viu representantes do Estado (policiais militares) matar crianças como ele na Candelária, foi preso e tratado com extrema violência pelo sistema socioeducativo do Estado, foi espancado e obrigado a conviver com traficantes e criminosos muito mais violentos que ele no Instituto Padre Severino e deu entrada no sistema prisional carioca, onde o Estado o colocou em uma cela superlotada e insalubre. O torturou por anos.

A tese de Ônibus 174, exemplificada pela trajetória de Sandro, é muita clara: as organizações que deveriam reeducar os pequenos criminosos os convertem em criminosos violentos. Não fui eu quem formulou essa tese, diga-se de passagem. Foi o próprio Sandro, que a gritou em altos brados da janela do ônibus para quem quisesse ouvir.

Em Tropa de Elite tentei dizer que a mesma coisa acontece no âmbito da polícia. O Estado trata muito mal os indivíduos que se propõem a trabalhar nas organizações policiais. Paga pouco, treina mal, e os submete a uma cultura organizacional militarizada e kafkiana, que tolera a corrupção e estimula a violência. Como disse o capitão Nascimento: “Quem quer ser polícia no Rio de Janeiro tem que escolher: ou se omite, ou se corrompe, ou vai pra guerra”. Tanto a violência e o desrespeito aos direitos humanos do capitão Nascimento quanto a corrupção desenfreada do capitão Fábio são forjadas no mesmo lugar, pela mesma organização. Certa feita um governador do Rio de Janeiro disse a mim e ao jornalista Rodrigo Pimentel que Tropa de Elite era um filme demasiado pessimista. Em sua opinião, a PM do Rio não era tão corrupta quanto pensávamos. Pelas suas contas, um terço dos policiais do Rio é corrupto, outro terço é honesto, e o restante variava conforme o comando. Se a PM do Rio tem mais de 13 mil homens corruptos, então o problema não são seus homens, é a organização. Os policiais do Rio de Janeiro são vítimas da PM.

A tese de Tropa de Elite, instanciada na trajetória do aspirante André Mathias, é igualmente óbvia: as instituições que deveriam combater a criminalidade convertem boa parte das pessoas que trabalham nelas em policiais corruptos e violentos. Fazem isso com grande eficiência e em altas taxas.

Acredito que cada um dos casos simbólicos que listei, de Vigário Geral à tomada da Vila Cruzeiro, ilustra essa tese. Cada um deles envolve traficantes, policiais corruptos e policiais violentos cuja subjetividade e comportamento criminoso foram moldados por instituições do Estado.

Fiz um terceiro filme, Tropa de Elite 2, para tentar dizer por que o Estado funciona assim. Em Tropa de Elite 2 o capitão Nascimento é promovido a subsecretário de inteligência e obrigado a lidar com as conexões que existem entre a polícia e a política. São essas conexões, muitas vezes calcadas em interesses e lógicas eleitorais, que criam e mantêm as instituições que descrevi nos filmes anteriores.

Voltando ao mundo real, deixo claro que apoio as UPPs e sou favorável a esse projeto do governador Sérgio Cabral. Reconheço que ele é fundamental para recuperar o território que o tráfico tomou. Acredito que o Rio não pode recuar no primeiro confronto. Todavia, acho que o projeto das UPPs é apenas meio projeto, e não um projeto inteiro. Onde está a reforma da polícia? Não a maquiagem, mas a reforma concreta, o programa eficiente de seleção e treinamento de policiais, o programa de capacitação profissional, o pagamento de salários dignos, o seguro saúde e o auxílio-educação para as famílias dos policiais? Onde está a corregedoria que funciona? Onde está a reforma do sistema prisional? A capacitação dos agentes penitenciários? A reforma do sistema socioeducativo? A boa formação dos seus operadores?

O projeto das UPPs é fundamental para a sobrevivência do paciente, mas ignora as causas da doença. Na ausência de uma real reforma das instituições que mencionei, o esforço e o engajamento da população carioca no projeto das UPPs pode ser em vão. Afinal, quem vai ocupar as comunidades libertadas? A mesma polícia que conviveu com o tráfico de drogas na cidade por mais de 30 anos, o viu crescer e se expandir e o deixou se instalar. O projeto das UPPs não é um projeto da polícia, é um projeto do governo. O que garante, no médio ou no longo prazo, quando este governo sair e outro entrar no lugar, que as UPPs não se tornarão áreas de milícia?

Eu me lembro, na ocasião do Ônibus 174, que o então presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi à TV prometer um plano nacional capaz de reformar as instituições ligadas à segurança pública em todo o Brasil. Teve dois mandatos para cumprir a promessa, e não o fez. Depois veio o atual presidente Lula, do PT. Apresentou um Plano Nacional de Segurança bem bolado, escrito pelo professor Luiz Eduardo Soares. Estamos ao final do seu segundo mandato e o plano continua engavetado. Finalmente, não vamos esquecer o PMDB, do governador Sérgio Cabral, que em ambos governos nada propôs de significativo na área da segurança. A verdade é que nos últimos 30 anos nossos políticos ficaram vendo inocentes morrer. Lavaram as mãos.

O que aconteceu no Rio de Janeiro nessa semana foi significativo. Creio que vai acontecer de novo se o governador insistir com as UPPs. E, como a Copa do Mundo e a Olimpíada estão aí, não há outra alternativa viável. Os confrontos serão inevitáveis e recorrentes. Espero que esses confrontos sirvam para, além de libertar comunidades carentes, forçar o governo federal a entrar de cabeça na luta contra o crime e implementar um plano de nacional de segurança sério, capaz de resolver de uma vez por todas o problema da segurança pública no Brasil.

JOSÉ PADILHA É CINEASTA E DIRETOR DE 'ÔNIBUS 174', 'TROPA DE ELITE', 'TROPA DE ELITE 2', 'GARAPA' E 'SEGREDOS DA TRIBO'


Momento Histórico por causa de um filme?

Sim. Exatamente isso. Caso não fosse a exibição do filme Tropa de Elite 2, nada do que estamos vendo no Rio de Janeiro estaria acontecendo.
O filme não foi culpado pelos ataques dos traficantes. Muito pelo contrário.
Tropa de Elite 2 é responsável hoje pela postura dos policiais e dos soldados envolvidos nessa mega operação.
Eles hoje estão com orgulho de sua missão, de seu trabalho. Hoje eles não querem manchar o distintivo, não querem deixar nódoas para trás. Querem honrar a profissão, que muitos colegas trataram de manchar ao longo de décadas.
Quando a revista Veja mostrou o comandante Nascimento (Wagner Moura) em sua capa, chamando-o de herói, estava documentando uma virada histórica que comentei aqui no meu blog. Não víamos heróis em nossa ficção há mais de um século, e heróis são fundamentais para qualquer cultura. Heróis são modelos, são exemplos. Nossos policiais não tinham exemplo.
Agora eles têm.
Na década de 90 um general britânico disse que o filme Top Gun vencera para os EUA todas as guerras que ocorreram desde os anos 80. Vencera porque conseguiu projetar uma imagem de invencibilidade que não existia, por exemplo, no Vietnã. Os vietcongs não "sabiam" que os ianques eram "invencíveis", por isso os venceu.
A grande máquina de guerra dos EUA é cheia de falhas, mas seus inimigos modernos, mais atuais, nunca as exploraram, devido à propaganda da ficção ianque.

Não considero Tropa de Elite 2 uma propaganda. Nada disso. O filme é um resgate do orgulho de ser brasileiro. Por isso acho que a partir de hoje ninguém mais deveria dizer "isso só acontece no Brasil", "tinha que ser no Brasil", "tinha que ser brasileiro"...
Acho isso porque estamos vendo claramente o que um filme fez pelo Brasil.

Boa sorte aos rapazes das forças de segurança. Sorte e bom senso.

Guerra na noite

Corrijam-me se estiver errado, mas já usei óculos de visão noturna e não é muito fácil de se adaptar. Ele tira um pouco da espacialidade. Mesmo os usados por pilotos de helicóptero Apache sentem esse problema. Espero que a invasão, se for efetuada hoje à noite mesmo, seja realizada por pessoal bem experiente nesse tipo de combate.
A superioridade numérica existe, mas são 600 soldados do tráfico lá dentro que devem ter guardado algumas surpresas para as forças de segurança.
No entanto, não há mais como voltar atrás. O momento é histórico mesmo e é preciso aproveitar esse espírito de justiça. Quem se render será preso, ponto final. Mas, como diz o porta-voz da PM, deve entregar suas armas.
Quem decidir ficar lá em cima é porque está apostando que o Estado vai recuar. E mais, deve estar apostando em usar o escudo humano que o Complexo do Alemão oferece.
Por isso acho que qualquer vacilo será muito problemático para as forças de segurança.
Se conseguirem, nesta noite, avançar algumas centenas de metros e não deixarem ninguém fugir, já será uma grande vitória. Considero mesmo muito melhor que toquem o terror sobre os criminosos, que não deixem ninguém dormir. Que façam investidas isoladas de incursão e recuo, fustigando a resistência dos criminosos.
É melhor deixar para amanhã pela manhã fazerem uma investida realmente forte e decisiva.


Confira meus livros "Souvenir Iraquiano" e "Fronteira"