quarta-feira, 17 de agosto de 2011

OTAN X Líbia Parte 2


A força militar com a pior mira do planeta

Líbios reclamam dos ataques da Otan. O plano seria ver os dois lados se desgastando p

ara depois invadir com tranquilidade?

Ficamos parados em Tunis e isso se tornou insuportável. A nossa missão era


chegar perto da guerra e levantar fatos. A 750km de Tripoli poderíamos fazer o quê? Conversar com líbios que estivessem na Tunísia, ora bolas. Bastaria achá-los.


Um garçom falou para nós que o que não falta na Tunísia é líbio, e recomendou uma volta por um determinado bairro (vou ocultar o nome para

proteger a comunidade local). Foi o que fizemos. Pegamos um táxi e seguimos para o local, ouvindo música árabe durante todo o percurso. Pagamos em moeda local, sempre com um pouco de discussão e reclamações e entramos em um hotel depois de fazer algumas perguntas a uns populares.


O recepcionista concordou que havia vários líbios hospedados no local, mas que talvez nã

o quisessem dar entrevistas, se identificar. Insisti para tentar, quando ele perguntou, em inglês:

- Você fala árabe? Quem vai tr

aduzir para você o que eles dizem?


- Você! – declarei, em resposta.

- Vinte euros.


Com meu intérprete feliz da vida, os telefonemas começaram e em alguns minutos desceu um grupo de homens. Conversamos com a ajuda do recepcionista e descobrimos que todos se arriscavam no inglês, assim como eu. O Miguel, com duas câmeras em punho (foto e vídeo), deu o OK.

O primeiro a falar foi Habib Aribi Doui, 47 anos, militar aposentado, que voltou à ati


va como consultor militar dos rebeldes. Como ele mesmo disse, “uma grande sorte nos encontrarmos aqui”.


Pergunta: Diga para a gente o que está acontecendo em seu país, de forma sincera. Ouvimos um monte de coisas na imprensa internacional, queremos a verdade, ok?

Habib Aribi Doui: Posso falar pelo que acontece em nossa região, de Jado (270km de Tripoli), nas montanhas, assim como de Zauia, Sabratah e Gilata. Nós somos uma força de


30 mil homens lutando na região da costa. Hoje todas as pessoas do país estão conosco. Em qualquer cidade onde entramos e expulsamos as forças de Gadaffi, as pessoas vêm festejar conosco.

Pergunta: A Otan está ajudando?


Aribi Doui: Este mês sim.

Pergunta: O que pode dizer sobre o ataque de ontem (segunda-feira)?


Aribi Doui: Não sei dizer ao certo, estava vindo para cá. Mas sei que há 3 ou 4 dias a Otan atacou na região do front onde estávamos.

Pergunta: É seguro para nós entramos na Líbia? (eu expliquei quem éramos e nossa missão, e que estávamos a convite do governo Líbio. Não ia mentir, pois poderíamos ser seguidos, e daí?)

Aribi Doui: É seguro, entrando pelas montanhas, pelas nossas cidades. Eu posso ajudar vocês. Vamos voltar amanhã ou depois de amanhã (quarta ou quinta), após finalizar meu trabalho aqui. Podem vir comigo (trocamos telefones para combinar isso).

Depois de falar com o consultor militar, falei com Bashir Mustafa, um laboratorista líbio de 28 anos, com um ar de sofrimento. Fui saber o motivo ao longo de seu depoimento.

Pergunta: O que você está fazendo aqui na Tunísia?


Bashir Mustafa: Venho comprar remédios e materiais para exames em laboratório. Depois disso vou voltar para a Líbia.

Pergunta: Você pode viajar tranquilamente da Líbia para cá e vice versa? (ele pode? Por que nós não podemos???)

Bashir: Estou fazendo essa viagem pelo mar, é seguro, mas na região de Mstrata tem alguns problemas de vez em quando.

Pergunta: Quanto custa a viagem por mar?

Bashir: De Sfax a Mstrata custa cerca de 200 dinars... não muito.

Pergunta: O que você acha que está acontecendo na Líbia? O que é essa guerra, toda essa comoção?


Bashir: O que eu sei é que as forças de Gadaffi estão usando todas as armas de guerra que eles têm, como bombas, foguetes, tudo para matar civis, destruir construções e tudo mais.

Pergunta: As forças de Gadaffi estão usando tudo o que têm para enfrentar os rebeldes, é uma guerra aberta, franca, certo?

Bashir: Sim, sim, isso em Mstrata, eu vivo em Mstrata, porque as forças de Gadaffi estão usando todos os métodos para inibir essa revolução.

Pergunta: Você perdeu algum familiar nesses combates?



Bashir: Sim, sim. Acho que em todas as famílias de Mstrata, na maioria, foi perdida uma, duas ou mais pessoas... (Bashir estava muito emocionado quando falou isso)

Pergunta: Bashir, o mundo viu esse conflito começar no início do ano, mas qual foi realmente

o começo dessa oposição? O que houve antes da guerra começar de verdade?

Bashir: Eu sei do que vem passando em Mstrata. Lá começou tudo no dia 6 de março. Talvez as forças rebeldes tenham tentado atacar Gadaffi antes disso, mas eu não sei.

Pergunta: Você deve estar esperando que essa guerra termine logo, eu acredito. Qual lado você espera que vença essa guerra?

Bashir: Nós, claro, o povo! Essa operação de guerra é de todo um povo contra um homem, ou uma família, se você preferir, os Gadaffi.

Pergunta: Você quer falar para a gente o que você acha dos ataques da Otan?

Bashir: Sim, quero. A Otan está fazendo bem, mas acho que eles vieram para a Líbia para ajudar os civis, certo? A Otan começou os ataques em março, mas desse tempo para cá eu não sei quantas pessoas na Líbia morreram, mas em Mstrata foram 1,3 mil ou mais. Acho que mais. A Otan TEM FALHADO em salvar civis.

Neste momento, o consultor dos rebeldes, Habib Aribi Doui reentrou na conversa. A entrevista virou uma mesa redonda com quatro árabes falando, um brasileiro tentando mediar e um outro brasileiro tentando colocar todo mundo na objetiva da câmera.

Aribi Doui: As forças da Otan não têm salvado civis. As forças de Gadaffi matam civis todos os dias (durante os combates). A Otan não tem bombardeado as forças de Gadaffi todos os dias. Eles têm matado nosso povo em todos os fronts, em Mstrata, Benghazi e nas montanhas.

Pergunta: Mas o que eles estão fazendo?

Aribi Doui: A Otan não age e não enfrenta as forças de Gadaffi. A Otan não olha pelos civis na Líbia!

Pergunta: Vocês acham que os ataques da Otan poderiam ser mais efetivos?

Bashir: Sim! Mais efetivos. Eles podem fazer isso pelo ar, porque as forças de Gadaffi podem ser encontradas sem grandes áreas planas e abertas. Por que não bombardear? Por que não conseguem acertar as milícias???

Pergunta: Por que não conseguem? O que há de errado com eles? (não são eles que têm tanta tecnologia? Satélites, mísseis, bombas inteligentes?)

Aribi Doui: Nós não sabemos! A Líbia tem milhões de quilômetros quadrados. As forças de Gadaffi estão ao redor das cidades. Fáceis de achar. Eles poderiam fazer isso, mas não fazem....

Pergunta: Vocês acham que se a Otan entrar no seu país para finalizar esse serviço, eles vão ficar por lá?

Bashir: Eu acho que eles irão embora... Não, acho que eles DEVEM ir embora.


Amanhã, entrevista com jogador de futebol aqui do Brasil que mora e joga na Tunísia conta como foram os dias de revolta em Túnis e como é a vida ao lado de uma guerra. Também mostraremos como é o trabalho de quem tenta levar alimentos e remédios para dentro da Líbia.