sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Para que lado iria o meu relatório

Se fosse para finalizar meu relatório agora, mesmo sem ter entrado na Líbia, meu texto apontaria para o lado da paz. Apontaria para o fim do bombardeio da Otan sobre o país. Os motivos são claros.
Mesmo antes de sair do Brasil, como é possível conferir neste blog, meu posicionamento era de que a tal Primavera Árabe não passava de uma estratégia de dominação. Não acredito, agora, que esteja errado.
Os entrevistados líbios, mesmo contra Gaddafi, ressaltaram a ineficiência dos ataques da Otan. Não dá para acreditar que isso seja normal. Mesmo a artilharia baseada em navios no Mediterrâneo, com um bom sistema de observação em solo feito pelos rebeldes, permitiria que as forças de Gaddafi fossem atingidas com eficiência. Isso não acontece.
Mas o que acontece? Por que os rebeldes e os líbios contra Gaddafi dizem que ele vem matando os líbios?
Isso é uma situação muito fácil de explicar em uma guerra.
Os rebeldes vêm travando uma tentativa de guerra de ocupação nas cidades líbias. Isso significa que eles tentam expulsar as forças regulares e depois ocupar posições.
Mas essas trincheiras ficam onde? Nos corações das cidades e vilarejos. E os combates travados dentro de cidades causam baixas nos três lados - principalmente entre civis.
E são exatamente essas baixas que trazem muita vantagem para a Otan, para os EUA.
De imediato, eles pensaram que com isso colocariam o povo líbio diretamente contra seu líder, mas os líbios parecem escolados. Como disse o articulista de texto postado abaixo, eles conhecem Gaddafi há mais de 40 anos e os norte-americanos tiveram 40 anos para colocá-lo para fora. E todos nós sabemos que há um bom tempo os ianques não se preocupavam com Gaddafi na liderança da Líbia.

O que aconteceria caso a Otan fosse obrigada a parar com seu bombardeio?
Ora, as mortes parariam apenas se a própria Otan criasse uma área de exclusão para a saída dos rebeldes, para que depusessem suas armas e se começasse um processo democrático como já foi proposto por Gaddafi.
Mas como garantir a segurança dos rebeldes após a trégua?
A área de exclusão deveria garantir condições de segurança para a reintegração dessas pessoas ou para a retirada para outros países. O que não dá para acreditar é que a oposição a Gaddafi seja tão grande quanto foi dito.
Desde o início da guerra o governo líbio tem armado a população para enfrentar uma provável invasão estrangeira. Estariam eles armando o próprio inimigo? Além do mais, pelas informações que obtivemos, boa parte dos líbios já estavam armados antes dos conflitos.
A impressão que temos é de que a oposição que pôs as mãos nas armas não é tão grande assim e é mais mobilizada por uma intenção externa do que por um crescente movimento interno. Nossos entrevistados não souberam datar a progressão dos confrontos, desde que eram de palavras e protestos, até que se tornassem em conflito armado.
É claro que uma investigação como essa requer mais tempo, mas a Anistia Internacional, por exemplo, já chegou a posição semelhante, assim como observadores até mesmo europeus.
Seria interessante que a Europa e os EUA reunissem esforços para, junto com Gaddafi, levar seu rio subterrâneo com águas datadas da Era do Gelo para o resto da África subsaariana. Talvez isso melhorasse a situação da Etiópia e da Somália.

Mas ninguém está pensando em água, não é verdade?