terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Reflexões de uma tarde em uma livraria

Duas horas dentro de uma loja da Livraria Cultura, no último sábado, provocaram algumas reflexões ligadas ao tema “lançamento de um novo autor”, que discutimos aqui. Deixa eu ver se consigo jogar tudo neste post.

À primeira vista, as prateleiras centrais, onde os livros ficam com capa exposta para quem entra na loja, estão reservadas para os livros que estão nas listas de mais vendidos. Estas listas estão publicadas em grandes revistas. São livros que foram resenhados em jornais e revistas e citados na TV. Os temas são variados.

Depois você tem as prateleiras temáticas. É lá onde você encontra os livros da moda, como os de vampiro, hoje em dia. E também, no setor infanto-juvenil, os Zac Powers e outras séries. Todos com as capas à mostra e geralmente seguindo tendências.

Depois disso você tem os livros dos quais vê apenas as lombadas em estantes. Lá você encontra centenas de novos autores brasileiros, estrangeiros, etc. É fácil achar grandes nomes nas estantes, pois eles se destacam mais que os títulos nas lombadas. Os desconhecidos ficarão desconhecidos para todo o sempre.

A reflexão a qual eu me refiro é relacionada às prateleiras temáticas. Elas estão, na grande maioria, repletas de traduções. O mercado editorial dos EUA e na Europa trabalham dessa forma, por tendências. E como funciona aqui?

André Vianco entrou na tendência dos vampiros e o Draco, por exemplo, nos livros de fantasia. Tem leitor para isso? É claro que tem. Há espaço para mais gente produzir, porque afinal de contas os leitores correm atrás geralmente de experiências parecidas com as quais eles tiveram nas leituras anteriores. Esse é o motivo das prateleiras temáticas.

Mas como funciona o mercado editorial aqui? Ele procura gente para produzir?

Uma olhada no site da Nova Fronteira, no fale conosco, nos leva a uma mensagem que está lá há uns 3 anos: estão em fase de reestruturação e por isso não estão aceitando originais. A Rede Globo também não aceita originais. Se você conseguir mandar um email com um original para o pessoal que cuida da dramaturgia, vai receber um email de volta deixando claro que ele não pediu seu original e que não vai lê-lo. A Rede Globo, segundo fui informado por uma pessoa daquele setor, tem 250 redatores.

Como foram contratados?

Como as pessoas da direção viram seus originais, se não aceitam originais?

Se a indústria do livro começasse a trabalhar com temas, veria que ela não tem autores o suficiente para fornecer livros para leitores que estão ávidos por entretenimento. Uma olhada nas prateleiras infanto-juvenil mostra que a indústria não está muito interessada em desenvolver sua produção própria. As traduções são extremamente bem vindas.

Acredito realmente que trabalhar com temas poderia ser solução para lançar muitos autores. Como agente literário ou editor, eu vejo um original como uma prova de talento (se houver mesmo o talento), e não como um atestado de que o autor pode escrever apenas aquilo. Muita gente poderia ser contratada para escrever romances desse ou daquele tema, ocupando lugar que hoje é de autores estrangeiros que na maioria das vezes não passam de operários da indústria do livro.

Por isso eu perguntei, em um post anterior, quem era Roderick Thorpe. Ele é o autor de Duro de Matar, um filme que mudou as tendências dos filmes de ação. E quais foram os outros livros que ele escreveu? Isso é indústria cultural, que no final das contas acaba representando emprego, cultura, identidade nacional e uma penca de outras coisas positivas.


Em tempo: a gente viu muito esse trabalho no Brasil com a literatura de autoajuda...